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Conforme esclarece o Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, a deficiência de vitamina D é provavelmente a condição nutricional mais prevalente e mais subestimada na terceira idade. Estimativas conservadoras indicam que mais de 70% dos idosos brasileiros apresentam níveis insuficientes dessa vitamina, mesmo em um país com abundância de luz solar durante todo o ano. Esse paradoxo, que contradiz a intuição de que a exposição ao sol seria suficiente para manter níveis adequados, tem explicações clínicas precisas que a medicina geriátrica precisa comunicar com muito mais clareza do que habitualmente faz.
Vamos entender por que quase todos os idosos têm deficiência de vitamina D, o que essa deficiência causa além dos ossos fracos e o que vai além do comprimido para corrigir esse problema.
Por que quase todos os idosos têm deficiência de vitamina D?
A vitamina D é sintetizada na pele a partir da exposição aos raios ultravioleta B do sol, mas essa síntese é muito menos eficiente no idoso do que no adulto jovem. A pele envelhecida tem menor concentração de 7-deidrocolesterol, o precursor necessário para a produção de vitamina D, reduzindo em até quatro vezes a capacidade de síntese cutânea em comparação com pessoas jovens submetidas à mesma exposição solar. Além disso, os rins envelhecidos convertem a vitamina D em sua forma ativa com menor eficiência, comprometendo a biodisponibilidade mesmo quando os níveis séricos parecem adequados.
Como detalha Yuri Silva Portela, há ainda fatores comportamentais que agravam o problema: idosos passam mais tempo em ambientes fechados, usam roupas que cobrem grande parte da pele por costume ou por pudor, aplicam protetor solar que bloqueia a síntese cutânea e têm dietas frequentemente pobres nas poucas fontes alimentares de vitamina D, como peixes gordurosos, gema de ovo e cogumelos. Esse conjunto de fatores explica por que a deficiência de vitamina D é virtualmente universal na população idosa brasileira, independentemente da latitude em que vivem.
O que a deficiência de vitamina D causa além dos ossos fracos?
A associação entre vitamina D e saúde óssea é a mais conhecida, mas representa apenas uma fração do impacto clínico dessa deficiência no idoso. A vitamina D tem receptores em praticamente todos os tecidos do organismo e participa de processos que vão muito além do metabolismo do cálcio. De fato, sua deficiência está associada a maior risco de depressão, de comprometimento cognitivo e de demência, de doenças autoimunes, de infecções respiratórias recorrentes, de doenças cardiovasculares e de alguns tipos de câncer.

Na avaliação de Yuri Silva Portela, a fraqueza muscular é um dos efeitos menos discutidos e mais clinicamente relevantes da hipovitaminose D no idoso. A vitamina D tem papel direto na função muscular, e sua deficiência produz miopatia proximal, fraqueza nos músculos das coxas e dos ombros, que compromete a capacidade de levantar de cadeiras, subir escadas e manter o equilíbrio durante a marcha. Esse mecanismo explica por que a correção da deficiência de vitamina D reduz significativamente o risco de quedas em idosos, com benefício independente do efeito sobre os ossos.
O que vai além da suplementação para corrigir a deficiência?
A suplementação oral de vitamina D é eficaz e necessária na maioria dos idosos com deficiência documentada, mas não é suficiente como intervenção isolada quando não são corrigidos os fatores que causam e perpetuam a deficiência. Na prática, a exposição solar regular e segura, de quinze a vinte minutos por dia em horários adequados, com braços e pernas expostos, continua sendo a forma mais fisiológica de manter níveis adequados e deve ser incentivada ativamente, mesmo em idosos que já fazem suplementação oral.
Conforme ressalta Yuri Silva Portela, a dose de suplementação precisa ser individualizada com base na dosagem sérica de 25-hidroxivitamina D, o exame que reflete os estoques corporais dessa vitamina. Afinal, doses padronizadas sem monitoramento laboratorial frequentemente são insuficientes para corrigir deficiências graves ou excessivas para idosos com níveis já adequados. O objetivo terapêutico não é apenas tirar o idoso da deficiência, mas mantê-lo em uma faixa que produza os benefícios musculares, imunológicos e neurológicos que a vitamina D oferece quando presente em quantidade suficiente.
Quando suspeitar de deficiência e como investigar?
Todo idoso com queda frequente sem causa aparente, fraqueza muscular proximal, dor óssea difusa, depressão resistente ao tratamento ou infecções recorrentes deveria ter a vitamina D dosada como parte da investigação clínica, independentemente de outros fatores de risco. A dosagem sérica de 25-hidroxivitamina D é um exame simples, de custo acessível e com resultado que pode mudar completamente o plano terapêutico quando revela uma deficiência que nenhum outro exame havia identificado.
Yuri Silva Portela pontua que a hipovitaminose D no idoso é uma condição com diagnóstico fácil, tratamento acessível e impacto real sobre múltiplos sistemas que a medicina geriátrica ainda subutiliza como alvo terapêutico. Corrigir a vitamina D do idoso não é apenas fortalecer os ossos: é cuidar do músculo que o sustenta, do cérebro que o orienta e do sistema imune que o protege.
