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Conforme pondera Taiza Tosatt Eleoterio, profissional com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, o gaslighting é uma forma de manipulação emocional em que a pessoa é levada a duvidar da própria memória, das próprias percepções e até do próprio julgamento. Frases como “isso nunca aconteceu” ou “você está exagerando”, repetidas ao longo do tempo, vão plantando a dúvida.
A psicanálise ajuda a entender por que essa dúvida se instala com tanta facilidade em vínculos de afeto e confiança. Conhecer esse mecanismo, sem julgamentos, permite reconhecer o que acontece em um relacionamento abusivo e fortalecer a autoestima de quem o vive.
O que é o gaslighting e como ele aparece no dia a dia?
O termo gaslighting descreve um padrão em que uma pessoa distorce fatos, nega o que foi dito ou feito e faz o outro acreditar que está confuso, sensível demais ou mesmo “inventando coisas”. Não se trata de uma discordância pontual, mas de uma repetição que, aos poucos, abala a confiança da pessoa na própria leitura da realidade.
Taiza Tosatt Eleoterio observa que esse padrão costuma aparecer em situações cotidianas. Alguém combina um compromisso e depois afirma que nunca combinou. Uma crítica é feita e, quando questionada, vira “brincadeira”. Um comportamento que machucou é negado, e quem se machucou passa a ouvir que “não foi bem assim”. Isoladas, essas cenas parecem banais, mas, somadas, deixam a pessoa sem saber em que acreditar.
Por que a dúvida sobre a própria memória é tão eficaz?
A memória de qualquer pessoa é imperfeita, e todos já tiveram a experiência de lembrar de um detalhe de maneira diferente de outra pessoa. O gaslighting se aproveita dessa característica comum: quando alguém afirma com segurança que as coisas aconteceram de outro jeito, a dúvida surge com facilidade, sobretudo se a pessoa confia em quem fala.
No entendimento de Taiza Tosatt Eleoterio, a eficácia da manipulação está na repetição e na proximidade. Quando a negação vem de alguém querido, em quem se deposita afeto, é mais fácil acreditar nela do que aceitar que essa pessoa está distorcendo os fatos. Assim, a dúvida vira autocrítica, e a pessoa passa a se perguntar se o problema está nela.
O que a psicanálise explica sobre confiança e dependência emocional?
Na psicanálise, os vínculos mais próximos pesam muito na imagem que a pessoa constrói de si. Quando alguém importante diz repetidamente que a percepção do outro está errada, a pessoa tende a ajustar a própria visão para preservar a relação, porque perder o vínculo parece mais ameaçador do que duvidar de si.
Esse movimento se liga à dependência emocional, em que a aprovação do outro passa a ser necessária para que a pessoa se sinta segura. Taiza Tosatt Eleoterio nota que a dependência não é sinal de fraqueza, e sim o resultado de um processo gradual, no qual a confiança em si vai sendo substituída pela confiança em quem manipula. Compreender isso é importante para que ninguém seja julgado por demorar a perceber o que acontece, nem por permanecer na relação.
Efeitos sobre a autoestima e a percepção de si
Conviver com dúvidas constantes sobre a própria memória e os próprios sentimentos desgasta a autoestima. A pessoa passa a pedir confirmação para decisões simples, a se desculpar por coisas que não fez e a esconder o que sente para evitar contestações. Também é comum a sensação de estar sempre “pisando em ovos”.
Taiza Tosatt Eleoterio alerta que os efeitos não ficam restritos à relação. Eles podem se estender ao trabalho e às amizades, porque a insegurança acompanha a pessoa em outros espaços. Quando esse padrão se soma a ameaças, humilhações ou agressões, o quadro pode configurar violência doméstica, e procurar apoio especializado é fundamental.
Como amigos e familiares podem acolher sem desacreditar?
Para quem está por perto, o primeiro cuidado é acreditar no relato e evitar frases como “tem certeza?” ou “você deve ter entendido errado”. Em um relacionamento tóxico marcado por manipulação, esse tipo de resposta reforça a dúvida que a pessoa já carrega. Perguntar como ela se sente e o que gostaria de fazer é mais útil do que oferecer interpretações prontas.
Manter o contato, sem pressionar por decisões, também faz diferença. Convites para conversar e mensagens de apoio mostram que existe um lugar seguro. Serviços de assistência social e centros de atendimento à mulher podem orientar sobre os caminhos possíveis, e uma rede de apoio atenta ajuda a pessoa a recuperar, aos poucos, a confiança na própria percepção.
A dúvida plantada não é falha de quem a sente
Ao concluir esta leitura, o gaslighting aparece como um mecanismo sutil e poderoso, que atua pela repetição e pela proximidade e que faz a pessoa duvidar daquilo que viveu. Reconhecer o padrão, sem culpa e sem pressa, é um passo importante para recuperar a segurança e para entender que a dúvida plantada não é falha de quem a sente.
Ninguém precisa provar nada a ninguém para merecer escuta e acolhimento. Taiza Tosatt Eleoterio ressalta que, com informação, apoio e pessoas dispostas a ouvir sem julgar, é possível reconstruir a confiança em si, fortalecer a autoestima e reencontrar a clareza para decidir, no próprio ritmo, os próximos passos.
